//“As empresas em Portugal têm boas intenções que são combinadas com más práticas”

“As empresas em Portugal têm boas intenções que são combinadas com más práticas”

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Em Portugal temos um quadro legal robusto no que toca à forma como a liderança e a gestão podem ser fatores de mudança, mas a prática fica muito aquém. É o que defende Miguel Pina e Cunha, professor da Universidade Nova School of Business and Economics (Nova SBE) e especialista em gestão de mudança e estudos organizacionais.

Atualmente debruçado sobre estas questões, foi convidado pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP) e a Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE) para liderar o estudo “Desafios à conciliação família-trabalho”.

À Renascença, o especialista diz que a cultura e a mentalidade são os fatores que têm de mudar. Isto porque, até ao momento, a lógica que está a ganhar é a de que a vantagem competitiva das empresas é obtida esmagando a relação com os trabalhadores e não equilibrando trabalho e família. “A abordagem é a de um dilema: escolho uma ou outra. E quando se escolhe uma, as empresas escolhem o trabalho.”

Quais são as principais conclusões deste estudo?

Do ponto de vista legal, não há uma grande diferença entre as práticas em Portugal e noutros países da Europa. Estamos alinhados com o que se passa lá fora. Uma segunda conclusão é que há empresas que têm métodos de conciliação sofisticados e avançados, e em terceiro lugar, que não basta as empresas terem boas ideias e até veiculá-las, é preciso pô-las em prática. Do ponto de vista cultural, temos alguns desafios, nomeadamente o de ajustar as mentalidades ao espírito da lei.

Disso é exemplo uma notícia recente do Expresso que fala de histórias de mulheres despedidas enquanto estavam grávidas. Este é um bom exemplo de como a lei e a prática divergem, por vezes.

Temos leis robustas, mas depois a questão é como é que se leva a lei à prática.

No balanço entre o que é a parte legal e o que é praticado, onde coloca Portugal nesta dimensão da conciliação entre trabalho e família?

[As empresas] têm boas intenções que são combinadas com más práticas. Como é que se muda a mentalidade para que a prática mude?

O problema é mais grave, porque estamos num inverno demográfico. As práticas organizacionais não cumprem o espírito da lei, o que implica uma atitude mais positiva das empresas relativamente às questões que têm a ver com trabalho e família.

“Do ponto de vista cultural, temos alguns desafios, nomeadamente o de ajustar as mentalidades ao espírito da lei.”

Estas duas forças são vistas como estando em tensão, a abordagem é a de um dilema: escolho uma ou outra. E quando se escolhe uma, as empresas escolhem o trabalho.

O desafio é fazermos com que as duas áreas impliquem uma compensação. O dia tem as horas que tem, mas é necessário encontrar medidas mais criativas e mais positivas para responder a esta tensão.

O quadro legal é suficiente em Portugal, mas depois não é aplicado?

Muitas vezes a lei não é aplicada, de uma forma que viola não só a lei mas também a ética.

Encontra alguma razão para que, em Portugal, esta relação seja sobretudo conflituosa e não cooperante?

O problema não é estritamente português. A relação entre trabalho e família é uma relação que tem pontos de tensão e isso é universal. Quando as pessoas têm duas facetas da vida que são importantes e têm de se dividir entre elas, é evidente que quando meto mais atenção numa tenho de tirar à outra.

“Quando escolhem entre trabalho e família, as empresas escolhem o trabalho”

O problema não é as pessoas terem uma vida profissional e familiar, mas a tensão entre fazer uma coisa ou fazer a outra. O que me parece interessante é encontrar pontos de conciliação.

Que estratégias podem ser seguidas?

Por exemplo, utilizar formas de trabalho que existem há muitas décadas mas que não são aplicadas: horários mais flexíveis e tecnologias que permitem às pessoas trabalhar mais tempo a partir de casa.

Isso existe há décadas, mas as empresas continuam a pensar que, se alguém trabalha a partir de casa, não está bem a trabalhar.

Uma das partes do problema é que avalio as pessoas pelo trabalho que fazem na empresa, quando nada impede que se trabalhe a partir de casa e se concilie as duas dimensões.

Também dizem isso no estudo, mais horas de trabalho não significam mais produtividade…

Sim, se a produtividade tivesse a ver com a quantidade de horas de trabalho, Portugal seria seguramente um dos países mais produtivos da Europa, e os dados não o mostram.

“Perdemos muito tempo em coisas que não acrescentam grande produtividade ao que fazemos”

Perdemos muito tempo em coisas que não acrescentam grande produtividade ao que fazemos. Cultiva-se o presentismo, estar no local de trabalho, sem estar ativamente a fazer nada. Precisamos de melhor gestão e de usar melhor as horas de trabalho que temos.

Num mercado de trabalho em que a precariedade é cada vez maior, como é que essa dinâmica joga com a necessidade de os trabalhadores darem importância à família, quando à primeira vista isso exige uma maior longevidade na relação entre trabalhador e empregador?

Essa é uma questão com diversas ramificações. O problema de perder o trabalho não seria grande desde que se encontrasse outro. O drama em Portugal é que se acredita que, se se perder o trabalho, vai ser difícil arranjar um novo. Durante anos, desenvolveu-se a ideia de que a melhor forma para sermos competitivos é pagar pouco e que a vantagem obtém-se por aí.

Há outras formas mais interessantes, nomeadamente de ter pessoas mais qualificadas a contribuir mais, o que exige melhor gestão.

A lei também defende um conjunto de ideias que está de acordo com a ideologia vigente: a de que é preciso defender as pessoas das organizações. O resultado é que o melhor é não contratar pessoas porque tem custos muito elevados. Como é que isto se ultrapassa? Com melhores gestores, que percebam que a forma de obter vantagens competitivas mais robustas passa por ter pessoas boas, empenhadas e bem geridas, que criem valor quando estão a trabalhar. Isso não significa que tenham de trabalhar mais horas, porque há uma certa altura em que isso não gera aumentos de produtividade. Isto faz-se tendo melhores empresas para trabalhar e melhores gestores.

“Durante anos, desenvolveu-se a ideia de que a melhor forma para sermos competitivos é pagar pouco e que a vantagem obtém-se por aí”

Se se assumir que a vantagem competitiva da empresa é obtida esmagando a relação com os fornecedores de trabalho, isso alimenta uma lógica de que ganho mais se o empregado receber menos.

Essa visão tem estado a ganhar…

Sim, sim. Em determinados setores, em particular onde o trabalho é relativamente indiferenciado, não teria grandes dúvidas. Pegando no exemplo da Walmart, a maior empregadora dos Estados Unidos, as pessoas trabalham a tempo inteiro e estão abaixo da linha de pobreza. No limite, as pessoas estão a fazer um trabalho de má qualidade que pode prejudicar a organização em algumas dimensões.

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