//Nova corrida ao ouro no horizonte. Setor dos penhores alerta para necessidade de regulação

Nova corrida ao ouro no horizonte. Setor dos penhores alerta para necessidade de regulação

O contrário também pode acontecer. Ainda hoje Maria Luísa Borges anda pelos tribunais a tentar ser ressarcida de impostos cobrados pela Autoridade Tributária (AT) sobre bens roubados à CUCP há mais de 10 anos, no valor de vários milhões de euros, e sobre os quais a empresa entende não dever ser tributada.

Mas é na boa clientela que Maria Luísa Borges centra atenções, nalguns casos “gerações de clientes” que por necessidade e confiança recorrem aos empréstimos da CUCP. Ou naqueles que recorrem ao penhor pela primeira vez, “pessoas que tinham as suas reservas, investiam em ouro, guardavam-no e, enquanto a banca os ajudava e tinham os seus trabalhos, não precisaram nunca de o utilizar”. Mas que a ele têm de recorrer por força das circunstâncias.

Como tantos outros estabelecimentos, há seis semanas sem clientes, esta empresa do ramo prestamista contabiliza uma quebra de 57,4% no volume de negócios entre meados de março e este final de abril, depois de no início do ano ter registado um aumento superior a 30% (em 2019 os empréstimos concedidos pela CUCP ascenderam a 15 milhões de euros).

A expetativa é de que o mês de maio traga boas notícias ao setor, com um reforço da procura de empréstimo, ditada pela necessidade de fazer face a compromissos e pela retoma da atividade económica.

“Estamos à espera que isso aconteça. As pessoas vão ter necessidade, porque ao prestamista não vem só o consumidor final”, diz Maria Luísa Borges, que complementa: “Temos muitos empresários que nos solicitam, ou porque têm créditos bloqueados, ou porque encontram juros superiores na banca”.

Também Luís Valente, presidente da APP, aponta para um aumento da procura das casas de penhores a partir de maio e explica porquê: “Rendas de casa, créditos bancários, etc. São quantias que, mais cedo ou mais tarde, terão de ser liquidadas; numa situação em que não têm rendimentos para fazer face a certas obrigações, a primeira coisa que as pessoas fazem é verificar o que têm para ser objeto de penhor”, diz.

Mais ou menos ouro, no bolso dos portugueses?

As próximas semanas poderão dar uma resposta a esta questão, depois da sangria operada entre finais de 2011 e 2012, em tempo da “troika”, em que milhões de euros em ouro saíram do país, tendo como principais destinos os mercados da Bélgica, Espanha e Itália.

A verdade é que em Lisboa, de há uma semana para cá, “as pessoas estão um bocado mais aflitas”, como diz à Renascença Maria João Barbosa, com “casa de penhores” num 1º andar da Rua dos Sapateiros, em plena baixa. Porém, esta empresária do ramo prestamista não encara com particular otimismo a fase que se avizinha e justifica com a recessão esperada. “Se não há vendas, também não podemos comprar aos particulares porque cheios de produtos estamos nós”.

Maria João é sócia gerente da Azevedo Pinho & Jesus Lda. e pressente que não haverá assim tanto ouro em casa dos portugueses para que estes o possam dar como garantia. “Podem aparecer clientes com outro tipo de joias completamente desvalorizadas, o que será mau para essas pessoas”, diz Maria João Barbosa, sustentada nos contactos que tem mantido com os israelitas e indianos com quem costuma trabalhar, e que lhe confirmam uma desvalorização a pique do mercado de diamantes.

“Se as pessoas me aparecerem sem ouro, com diamantes, outro tipo de joias, ou rejeito, ou terei que lhes dizer a verdade”. Isto é, que o produto que estão a dar como garantia perdeu valor no mercado.

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