//Vírus chinês põe 550 milhões de exportações portuguesas de quarentena

Vírus chinês põe 550 milhões de exportações portuguesas de quarentena

O surto que começou num mercado local, numa província no centro da China, tem efeitos à escala global. As consequências económicas do coronavírus, num momento que é o mais intenso em consumo e viagens naquele país, são ainda imprevisíveis mas já se antecipa uma quebra no PIB chinês. Com fábricas fechadas e viagens controladas, tal como o vírus, os seus efeitos não ficarão dentro de fronteiras.

Na era da economia global, quando a segunda maior economia mundial adoece todas as outras são contagiadas. O coronavírus, que pôs a China de cama, ameaça mais do que a saúde de quem ali vive ou tem contactos. No caso de Portugal, estão em causa milhões de euros em exportações, os negócios de empresas que têm Pequim como mercado, o fornecimento de setores aqui sediados.

Mármores, granitos e outras pedras, pastas celulósicas e papel, máquinas e aparelhos ou automóveis de passageiros foram os principais produtos que saíram para o Oriente no ano passado, num volume de vendas que chegou aos 553 milhões de euros entre janeiro e novembro (menos 10% do que um ano antes), enquanto de lá vieram máquinas e aparelhos, metais comuns e matérias têxteis – e chegaram em quantidade, sobretudo para abastecer indústrias, fazendo aumentar as importações em 26% nesses primeiros 11 meses, para 2,7 mil milhões.

É este volume de negócios e trocas que o coronavírus poderá quebrar. Os primeiros casos foram detetados em dezembro, em Wuhan, a capital da província de Hubei, onde vivem 11 milhões de pessoas, e desde então tem paralisado cidades inteiras. Sendo o vírus transmissível por ar, o surto já fez mais de 200 vítimas mortais e contagiou milhares, tendo alastrado a pelo menos 20 países. Os efeitos de um 1desta dimensão na produção chinesa estão ainda por contabilizar – tudo dependerá da real gravidade da doença, da intensidade e velocidade do contágio e do tratamento e do tempo de paragem laboral em que isso se traduzirá. E se, devido às celebrações do Ano Novo Lunar neste mês de janeiro, já era previsto que várias fábricas da região estivessem paradas, o prolongamento da pausa festiva ordenado pelo governo de Pequim quando o número de casos começou a crescer não é – por nenhum motivo – uma boa notícia.

“Há o risco de os encerramentos serem alargados. E, mesmo quando a produção for retomada, as fábricas podem não ser capazes de manter os níveis de produção”, avisam Piya Sachdeva, economista, e Azad Zangana, estratega e economista sénior para a Europa da Schroders. Os efeitos “sobre a procura são significativos para a China, mas têm potencial para afetar tanto ou mais a economia mundial, causando perturbações nas cadeias de fornecimento. A época em que este surto surge é particularmente infeliz, já que coincide com as celebrações do Ano Novo chinês – principal evento anual de migração de pessoas, com milhões a viajar, fazendo que seja problemático conter o vírus”, explicam.

No curto prazo, as limitações impostas às viagens e os receios da população “vão provavelmente reduzir a procura das famílias chinesas, bem como o turismo. Com um potencial atraso no regresso à normalidade, há o risco de Pequim crescer abaixo dos 6%”. Tendo em conta que “o resto do mundo só consegue neste momento níveis de crescimento moderados, a China é agora mais importante do que nunca para a economia mundial – e as potenciais perturbações nos próximos meses são preocupantes nessa mesma medida”.

Eurico Brilhante Dias, secretário de Estado da Internacionalização, admite que o cancelamento das ligações à China “terá seguramente impacto”. “Num momento de incerteza, há empresas e cidadãos que vão atrasar decisões e isso tem sempre impacto económico. Quanto mais rapidamente ultrapassarmos esta fase mais rapidamente poderemos recuperar.”

O responsável acrescenta que as “empresas portuguesas percebem que isto é uma questão contextual” e quem aposta na China não deixará cair este mercado. “Agora temos um momento de paragem das atividades. Esperamos o mais rapidamente possível voltar a retomá-las.” Difícil é ainda perceber quando isso poderá acontecer.

Comércio a meio-gás

“Ainda é cedo para avaliar impactos, mas estamos a acompanhar a situação”, declarou ao Dinheiro Vivo Rui Lopes Ferreira, CEO do SuperBock Group. A China é o principal mercado externo para a cervejeira portuguesa, mas mesmo que lhe custe uma boa fatia de resultados a empresa já reagiu à emergência de saúde. “Solicitámos o regresso temporário dos nossos colaboradores, por precaução; estando no Ano Novo chinês já há uma alteração natural na operação no mercado.”

Como a SuperBock, nos últimos dias várias empresas anunciaram medidas para proteger trabalhadores e clientes. O Facebook determinou a suspensão de todas as viagens para a China que não sejam essenciais e pediu aos funcionários que estiveram no país para trabalhar a partir de casa. A gigante do comércio eletrónico Alibaba, a Novartis e a Volkswagen fizeram o mesmo. A chinesa Tencent alargou o período de férias, que terminaria a 2 de fevereiro, até 9, e a Alphabet, dona da Google, encerrou temporariamente os escritórios em Pequim, Hong Kong e Taiwan.

O impacto económico dessas medidas está por apurar, mas se recuarmos a 2003 e à comparável epidemia de SARS (síndrome respiratória aguda grave), vemos que a taxa de crescimento do PIB chinês abrandou entre março e junho de 11% para 9%. Nesse tempo, a doença foi rapidamente contida e consequentemente o crescimento recuperou. “Agora, dependerá de quão rápido o surto possa ser contido, mas esperamos já impacto significativo no retalho, porque o vírus surge no principal período de consumo, o Ano Novo chinês”, indica Janet Mui, economista da Cazenove Capital, do universo Schroders. “Antecipamos uma perturbação significativa na atividade industrial e comercial”, diz. “O medo de contágio pode atenuar a procura, impactando o turismo, as viagens, o comércio e os serviços nos países afetados”, considera Atsi Sheth, diretor-geral da agência Moody’s. E lembra: “O fardo sobre o setor da saúde dos países envolvidos também poderá aumentar.”

Turismo e aviação

Se esta altura do ano é uma das mais populares para viagens na China, após recomendações das autoridades em Pequim várias companhias renderam-se à evidência de ter de aplicar medidas (mesmo que signifiquem perdas). A British Airways cancelou todas as ligações ao país; United Airlines, Air Canada, Taiwan’s China Airlines, Jetstar Asia, Korean Air e IndiGo cancelaram alguns voos. E a TAP não tem voos diretos para a China mas já confirmou estar “a acompanhar a situação” e “preparada para reagir em caso de necessidade”.

Várias cadeias de hotéis internacionais na China estão também a permitir que os seus clientes cancelem ou adiem reservas sem custos, numa altura em que grande parte dos operadores turísticos europeus, de acordo com a Reuters, cortou as viagens para este destino e alguns operadores chineses até estão a reembolsar os clientes.

Atrasos no automóvel

Com forte presença industrial, a cidade de Wuhan teve um PIB de 1,48 biliões de yuans (192 mil milhões de euros) em 2018, ano em que o de Portugal inteiro somou 203 mil milhões. As fábricas de construtoras automóveis conquistadas pela província de Hubei nos últimos anos – da Dongfeng à Honda, Grupo PSA (Peugeot e Citroën) e General Motors – pesa muito nessa equação.

Com uma fábrica na região de Xangai, onde produz o Model 3 – os primeiros carros desta unidade chegaram ao mercado no início do ano -, a Tesla assume que os atrasos na produção já são notórios. “Nesta altura, esperamos um atraso de uma semana a uma semana e meia para retomar a produção da construção do Model 3 em Xangai, devido à imposição do governo de encerrar a fábrica”, admitiu nesta semana o diretor financeiro da Tesla, Zachary Kirk-horn. E a rentabilidade da marca pode ser afetada.

Tech e luxo a sofrer

Devido ao potencial impacto deste vírus, as vendas do iPhone no mercado chinês também podem cair, admitiu já a Apple, enquanto o CEO, Tim Cook, tem preocupações acrescidas, mas a principal fornecedora de componentes do iPhone, Foxconn, afirma estar preparada para enfrentar o surto. Embora tenha a unidade de Wuhan, o principal ponto de produção do iPhone está a vários quilómetros do epicentro da doença. Por enquanto, a companhia mantém as unidades chinesas encerradas, conforme recomendado pelo governo chinês.

Sediada em Shenzhen, um dos centros tecnológicos da China, a Huawei, adiou a sua conferência anual dedicada a programadores para o final de março. A Xiaomi encerrou temporariamente todas as lojas na China. Solidariedade ou tentativa de controlar danos, vários empresários multimilionários anunciaram que estão a doar verbas para ajudar a travar a propagação do vírus e ajudar na investigação para uma vacina. De Jack Ma (14 milhões) a Bill Gates (dez milhões), a onda de donativos engordou nestes dias e alargou-se à indústria do luxo. Com os chineses a representar 90% do crescimento do mercado mundial do luxo (que ganhou cinco pontos percentuais no ano passado), segundo a consultora Bain & Co, a LVMH e a Kering juntaram mais três milhões ao bolo.

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